misericordioso-1perdaoO perdão é importante para a vida espiritual porque envolve o amor. Quem não perdoa, atrofia a sua capacidade de amar. Mas, por que é tão difícil fazê-lo?

Porque, além de não sermos nem anjos nem animais – mas um composto de corpo e alma -, por conta do pecado original, tendemos a olhar para o mundo externo como para um inimigo. De fato, o demônio convenceu Adão e Eva de que o próprio Deus era seu inimigo. Por isso, o homem se fecha e tem dificuldades de perdoar e amar. Uma psiquiatra suíça chamada Elisabeth Kübler-Ross, analisando pacientes terminais em hospitais e pessoas traumatizadas por perdas de entes queridos ou situações dramáticas, criou um modelo expondo como as pessoas reagem psiquicamente a ofensas, tragédias e lutos. As suas observações se popularizaram como «os cinco estágios do luto».

Primeiro, em uma a atitude de autodefesa, as pessoas tendem a negar o que está acontecendo, ou por sua soberba ou pela própria dificuldade de situação, como se "o que vem de baixo não as atingisse".

Depois, passa-se pela fase da ira. A pessoa atingida procura um bode expiatório, alguém sobre quem possa descarregar a sua raiva. Esse culpado pode ser real, mas também pode ser uma ficção. Importa dizer que a raiva foi criada por Deus, mas deve ser direcionada aos objetos corretos. Santo Tomás explica que «os pecadores não deixam de ser homens, pois o pecado não lhes destrói a natureza» (SumaTeológica,ll-ll,q.25,a.6).

No terceiro estágio, a pessoa entra em uma espécie de depressão, por conta de um sentimento de culpa. Para resolver essa situação, a culpa deve ser iluminada pelo perdão e pela misericórdia de Deus. Do mesmo modo, a chave para perdoar a si mesmo e a quem nos ofende é o próprio perdão que Deus nos oferece, como pedimos na oração do Pai Nosso: «Perdoa as nossas dívidas, assim como nós perdoamos aos que nos devem».

Quem tem dificuldade de perdoar padece de uma doença de memória: esqueceu a sua condição de pecador, perdoado por Deu de uma ofensa infinita cometida contra a Sua majestade.
No quarto estágio, tomados pelas paixões, queremos estabelecer uma espécie de barganha, colocando condições para o perdão. Por fim, na fase da aceitação, finalmente se concede o perdão gratuitamente, brotando de Deus.

É importante notar que esse recurso procura retratar psicologicamente uma realidade que é eminentemente espiritual, afinal, ninguém pode amar sem receber a graça de Deus. Esse processo de cura
psíquica descrito por Kübler-Ross, portanto, é perpassado por uma verdadeira luta espiritual, que começa na oração e termina em nossa vontade se dobrando diante da vontade divina.
Pode até ser que a pessoa que nos machucou não mereça o nosso perdão, mas Aquele que morreu por nossa causa na Cruz certamente o merece.

(Fonte: Padre Paulo Ricardo, A importância do perdão, in:padrepauloricardo,org)